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Yacoub era pobre, mas despreocupado e feliz, livre como um saltimbanco, sonhando sempre cada vez mais alto. Em boa verdade, estava apaixonado pelo mundo. Porém, o mundo à sua volta parecia-lhe sombrio, brutal, seco de coração, de alma obscura, e sofria com isso. «Como», perguntava-se, «como fazer com que seja melhor? Como trazer à bondade estes tristes vivos que vão e vêm sem olharem os seus semelhantes?» Ruminava estas perguntas pelas ruas de Praga, a sua cidade, vagueando e saudando as pessoas, que, mesmo assim, não lhe respondiam.
Ora, uma manhã, quando atravessava uma praça cheia de sol, teve uma ideia. «E se lhes contasse histórias?», pensou. «Assim, eu, que penso conhecer o sabor do amor e da beleza, ajudá-los-ia, seguramente, na procura da felicidade.» Pôs-se em cima de um banco e começou a contar. Admirados, os velhotes, as mulheres e as crianças pararam um momento a ouvi-lo, mas depois viraram-lhe as costas e prosseguiram o seu caminho.
Achando que não podia mudar o mundo num dia, Yacoub não perdeu a coragem. No dia seguinte voltou àquele mesmo lugar e de novo lançou ao vento, com voz forte, as mais comoventes palavras. Outras pessoas pararam para o ouvir, mas em número menor do que na véspera. Alguns riram-se dele. Houve mesmo quem lhe chamasse louco, mas não quis ouvir. «As palavras que semeio germinarão.», pensou. «Um dia entrarão nos espíritos e acordá-los-ão. Tenho de contar, contar sempre cada vez mais.»
Teimou, pois, e dia após dia voltou à grande praça de Praga para falar ao mundo, contar maravilhas, oferecer aos seus semelhantes o amor que sentia. Todavia, os curiosos tornaram‑se cada vez mais raros, desapareceram e em breve apenas falava para as nuvens, o vento e as silhuetas apressadas, que já só lhe lançavam uma olhadela de espanto à medida que passavam. No entanto, não desistiu.
Descobriu que não sabia nem desejava fazer outra coisa que não fosse contar as suas histórias, mesmo que não interessassem a ninguém. Começou a dizê-las de olhos fechados, pela única felicidade de as ouvir, sem se preocupar se era ouvido ou não. Sentiu-se bem e a partir dali só falava assim: de olhos fechados. As pessoas, temendo as suas extravagâncias, deixaram‑no só, com as suas histórias, e habituaram-se, assim que ouviam a sua voz ao vento, a evitar a esquina da praça onde se encontrava.
Assim se passaram anos. Ora, numa noite de Inverno, enquanto contava, no crepúsculo indiferente, um conto prodigioso, sentiu que alguém o puxava por uma manga. Abriu os olhos e viu uma criança, que, fazendo uma careta engraçada, lhe disse, esticando-se nas pontas dos pés:
— Não vês que ninguém te ouve, nunca te ouviu, jamais te ouvirá? O que te levou a viveres assim a vida?
— Estava louco de amor pelos meus semelhantes — respondeu Yacoub. — Foi por isso que, no tempo em que ainda não eras nascido, me veio o desejo de os tornar felizes.
O miúdo replicou:
— Pois bem, pobre louco, e eles são-no?
— Não — disse Yacoub, abanando a cabeça.
— Por que razão teimas então? — perguntou ternamente a criança.
Yacoub refletiu por instantes:
— Eu conto sempre, é claro, e contarei até morrer — disse. — Dantes, era para mudar o mundo.
Calou-se; depois, o seu olhar iluminou-se, e acrescentou:
— Hoje, é para que o mundo não me mude a mim.

Henri Gougaud
A Árvore dos Tesouros
Lisboa, Gradiva, 1988
(Adaptação)

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