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O Muro estava numa ilha ajardinada unida ao resto do parque por um conjunto de pontes de diferentes estilos e cores. Era um dos mais antigos monumentos do planeta, o resto de uma muralha que, em tempos idos, teve sete mil e trezentos quilómetros de comprimento e foi reparada e defendida ao longo de mais de mil anos. Os antepassados acreditavam firmemente na necessidade de construir muros para se protegerem dos outros homens, dos que tinham outra cor de pele, outras crenças e outra língua.
Habitualmente, o parque era um lugar tranquilo: só alguns grupos de alunos acompanhados dos professores faziam a grande viagem que levava até ali, enquanto a grande maioria da população preferia a visita virtual. Mas, naquela manhã de primavera, uma enorme multidão deslocara-se até ao parque para ver com os próprios olhos a cerimónia de adesão do planeta Terra à Federação dos Mundos, a grande Ekumene.
Um grupo de crianças, conscientes da importância da missão de representarem toda a Humanidade, entraram em cena e, de mãos dadas e sorridentes, começaram a contar, à vez, a história...
O muro é o símbolo do medo. Os antigos precisavam de muros para se protegerem dos que eram diferentes. Às vezes, construíam muros para impedirem outros de entrar; outras vezes subiam os muros, para que os de dentro fossem impedidos de sair e procuravam convencê-los de que era para o seu bem, para a sua proteção, de que viviam num lugar maravilhoso invejado e desejado pelos de fora. Os muros serviam para encerrar as pessoas fisicamente, para lhes tirar a liberdade.
Quem nascera protegido por um muro tinha de permanecer dentro dele. Quem nascera fora dele, podia viajar num território muito mais amplo, mas estava impedido de atravessar determinados muros. Quem fosse punido com a prisão, tinha de cumprir pena pelo tempo exigido. A desobediência era castigada com a morte.
Não só se construíam muros de pedra, como este, para separar as pessoas fisicamente, como também construíam muros mentais que separavam as povoações, as raças e os sexos. Havia lugares onde os homens não podiam conviver com as mulheres, outros onde os que tinham mais bens materiais estavam totalmente separados dos que tinham menos bens, e ainda outros em que os muros mentais separavam os que tinham poder dos que não o tinham, e os que acreditavam em divindades dos que não acreditavam senão no que era visível. O mundo estava cheio de muros de toda a espécie, de obstáculos para a união. E foram esses muros que mais custaram a derrubar quando se iniciou a mudança para o Pensamento Novo que devemos a Frida.
Quando ainda estava no infantário a brincar com peças de construção, Frida quis construir um jardim, enquanto as outras crianças faziam castelos e fortalezas. A professora disse-lhe que devia rodeá-lo de uma muralha para proteger as flores, mas Frida respondeu que queria que as suas flores fossem livres e tivessem boas vistas.
E foi então, segundo se diz, que Frida, em vez de fazer uma muralha à volta do jardim, recolheu as peças e as foi colocando umas a seguir às outras, horizontalmente, para fazer caminhos, estradas e pontes que interligaram as construções de todos os colegas e, pouco depois, formulou o que seria a semente da grande mudança: "Os muros e as pontes são construídos com os mesmos materiais."
Mal foram pronunciadas estas palavras, as crianças começaram a entoar frases de solidariedade e de diálogo, agora que o planeta estava prestes a entrar na grande Ekumene dos mundos.
Quando olhamos para alguém e desviamos o olhar, construímos um muro. Se olhas o outro nos olhos e sorris, constróis uma ponte.
Se falas com quem é diferente e ouves o que diz, constróis uma ponte que enriquece os dois. Se não permites que fale ou não o ouves, ergues um muro atrás do qual te vais esconder, só, assustado.
Acreditamos nas pontes, e acabamos de construir a que nos liga ao Universo.
Cada ponte é distinta porque a diferença é o que torna o Universo maravilhoso: a variedade de cores, de seres, de pensamentos.
Conservamos esta ruína para recordar que os muros não nos deixam ver, nos separam dos outros, convencendo-nos que quem está do outro lado é o inimigo, a ameaça, o mal, o impuro. Por isso, todas as nossas paredes são amovíveis, transparentes ou translúcidas.
Por isso, somos construtores de pontes.
As crianças ficaram em silêncio, ofegantes do esforço, com os rostos e braços voltados para o céu e um sorriso nos lábios.
O delegado da Federação levantou-se e, fazendo a saudação da paz, disse:
— Há muito que aguardamos este momento. Há muitos séculos que os humanos eram somente construtores de muros e a sua história era uma história de guerra e de exclusão, como foi a de muitos dos planetas que hoje fazem parte da Federação dos Mundos. Mas, agora, lançastes uma ponte na nossa direção e ficamos muito felizes de vos acolher entre nós! Bem-vindos a Ekumene!
As crianças saíram do palco, cansadas e felizes, deixando aos políticos a tarefa de concluir a assinatura do tratado que uniria a Terra ao resto dos mundos habitados.
— Acreditas que todos esses extraterrestres são realmente como nós? — sussurrou um dos meninos à sua melhor amiga.
Esta encolheu ligeiramente os ombros.
— Isso é o que eles dizem. Mas não há dúvida que os dois que vestem o fato de proteção parecem tudo menos humanos.
— Ainda bem que nós dormimos no outro lado — disse outra menina de sorriso travesso.
— Creio que apanharia um susto de morte pela manhã, se visse, ao abrir os olhos, a cara deles.
— A verdade é que, às vezes, os antigos tinham alguma razão em erguer muros.
— Shhh! Que a professora não te oiça, e logo hoje!
— Não me digam que não seria melhor colocar os mais feios por detrás das ruínas, para não os vermos — insistiu a menina travessa.
E, enquanto conversavam, afastaram-se em direção às árvores...

Elia Barceló
Didier Daeninckx et. al.
1989: diez relatos para atravesar los muros
Barcelona: Thule, 2009
(Tradução e adaptação)

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