Associar de novo o capitalismo ao cuidado e à compaixão

capitalismo

O sentimento de solidão que parece tão constante na sociedade de hoje não apareceu simplesmente do nada. Foi alimentado, em considerável medida, por um projeto político em particular: o capitalismo neoliberal. Uma forma de capitalismo egocêntrica e obcecada consigo mesma, que normalizou a indiferença, fez do egoísmo uma virtude e diminuiu a importância da compaixão e da atenção. Um capitalismo do tipo “subir a pulso” e “trabalhar cada vez mais”, que nega o papel fundamental que tanto os serviços públicos como a comunidade local desempenharam ao longo da história para ajudar as pessoas a prosperarem, e que perpetua, pelo contrário, a narrativa de que o destino de cada um está apenas nas suas mãos.

Não quer isto dizer que, antes, a solidão não existisse. Acontece que, ao terem transformado as nossas relações em transações, e os cidadãos em consumidores, e ao terem criado cada vez mais clivagens de rendimento e de riqueza, os quarenta anos de capitalismo neoliberal conseguiram, no melhor cenário, marginalizar valores como os da solidariedade, da comunidade, união e amabilidade, e, no pior cenário, pôr estes valores praticamente de lado. Temos, por isso de promover uma nova forma de política em cujo âmago encontremos o cuidado e a compaixão.

O objetivo político de levar os cidadãos a sentirem que alguém lhes protege a retaguarda não é irreconciliável com o capitalismo. É, na verdade, um mal-entendido fundamental do capitalismo pressupor que a sua variante neoliberal do tipo “Come ou sê comido” e “Cada um por si” é a única forma possível. Até Adam Smith, pai do capitalismo, embora mais conhecido como eloquente defensor dos mercados livres e da liberdade individual, escreveu extensamente, no seu livro Teoria dos Sentimentos Morais, sobre a importância da empatia, da comunidade e do pluralismo. Compreendeu que o estado tem um claro papel no que toca a proporcionar as infraestruturas da comunidade — e que, quando é preciso controlar os mercados para proteger a sociedade, estes devem ser de facto controlados.

Por conseguinte, embora o capitalismo neoliberal — com o seu foco estreito nos mercados livres e na desregulamentação, com a primazia que atribui aos direitos do capital, e com o seu antagonismo em relação ao estado-providência, mesmo que à custa da coesão social e do bem-comum — tenha dominado grande parte do mundo nas últimas quatro décadas, a verdade é que esta não é a nossa única opção para o futuro. Juntos, teremos de definir e de criar uma forma de capitalismo mais cooperativa, que produza resultados não apenas no plano económico, mas também no plano social.

Noreena Hertz
O Século da Solidão
Círculo de Leitores, 2021

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Comentário de Margarida Maria Madruga em 7 junho 2022 às 2:23

A mudança é necessária, isso é óbvio. Mas, talvez mais quatro décadas para ficar mais ou menos. Os valores foram invertidos de tal forma que o trabalho a ser feito tem que ser muito bem elaborado e rigoroso no seu cumprimento por parte do sistema.

Comentário de Martinha (adm) em 16 maio 2022 às 2:07

O capitalismo neoliberal, é o único culpado pela fome, desemprego e por muitas pessoas viverem a margem da sociedade, por não defender a participação do estado na economia, onde deve haver total liberdade de comércio, para garantir o crescimento econômico e o desenvolvimento social de um país. E isso implica como foi citado acima, marginalizar valores como os da solidariedade, da comunidade, união e amabilidade, e, no pior cenário, pôr estes valores praticamente de lado. aumentando o sentimento de solidão e até mesmo nos fazendo sentir um nada.

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