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O meu nome é João. A minha família tinha um pequeno armazém numa ruazinha próxima a uma rua movimentada. Os meus pais viviam ocupados e eu tinha asma, por isso passava a maior parte do tempo no sótão. Gostava muito de desenhar e adorava debruçar-me na janela a observar uma misteriosa área verde que havia na vizinhança, bem perto de casa.
Essa área pertencera a uma fábrica, agora abandonada, cercada por muros altos, e nela havia muitas árvores grandes cobertas por frondosas trepadeiras. Que bosque misterioso! Embora a maioria das pessoas não pudesse entrar, parecia que muitos animais moravam lá. Durante o dia, ou à noite, depois da chuva ou sob a luz da lua, havia diferentes sons que vinham do bosque...

Às vezes eu ouvia muitos sussurros, e era como se estivessem a contar-me um segredo. Então, deitava-me na minha cama e ficava a ouvir, atentamente... Quando os sons se aproximavam mais da minha janela, eu ficava bem quietinho e respirava em silêncio até o som desaparecer.
E todos os dias perguntava a mim mesmo: "Que animais vivem no bosque?".
Mesmo a minha mãe, que cresceu nas montanhas, dizia muitas vezes, enquanto lavava a louça:
— Porque é que eu ouço o som de um texugo bebé, se esses animais só vivem nas florestas?
A minha mãe também achava aqueles barulhos estranhos...

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Uma senhora gentil, que era freguesa do armazém, comentava:
— Este bosque é tão bonito! Sempre que passo por ele, não consigo evitar de parar um pouquinho e de ficar a apreciar a vista.
A minha mãe respondia:
— As árvores crescem muito próximas umas das outras. Deve haver alguns animais estranhos no bosque.

Sempre que eu ouvia as palavras de minha mãe, uma linda imagem formava-se na minha cabeça. Imaginava que, à noite, quando as pessoas estavam a dormir, todos os animais saíam do bosque e brincavam entre as árvores à beira da estrada e no parque. Os animais das montanhas próximas também desciam e iam para o bosque à procura de aventuras.
E, como o bosque era bem perto de minha casa, quando estava calor, os sapos tomavam um bom banho na pia da cozinha de minha mãe. Os passarinhos voavam e comiam o arroz que caía no chão.
Uma gata listrada desfilava com frequência pela nossa casa e subia para o telhado para tomar banhos de sol. Certa vez, chegou mesmo a ter uma ninhada num armário nosso!

Um dia, ao abrir a porta do sótão, encontrei um esquilo sentado no parapeito da janela. Olhei para ele, e ele virou a cabeça para olhar para mim. Depois de nos encararmos durante três segundos, fugiu por um galho de árvore acima. Havia, no parapeito, sementes pequenas e grandes que, provavelmente, o esquilo deixou para trás.
A minha mãe pegou nas sementes e disse:
— Todas as árvores crescem de uma sementinha como esta!
Surpreso, olhei para aquelas sementes mágicas e plantei-as em vasos, regando-as diariamente, e esperando que elas brotassem.
Por causa do bosque, a minha casa tornou-se um lugar muito interessante. Todos os dias acontecia alguma coisa bem emocionante! E, por isso, decidi transformar o bosque no meu jardim secreto, no meu refúgio!

Numa tarde de outono, o bosque estava forrado com lindas flores amarelas e eu decidi ir à procura de algumas sementes para plantar nos meus vasos. Usei uma corda para descer para o outro lado do muro.
E foi a primeira vez que entrei no meu jardim secreto!
Peguei em algumas sementes e olhei curioso para o grande bosque.
Quando eu passava por debaixo de uma figueira, ouvi ruídos vindos do topo da árvore, como se muitos pezinhos estivessem a fugir...
Fiquei tão assustado que nem olhei para trás.
Corri logo para o meu sótão! Talvez o bosque fosse um refúgio para os animais, e as pessoas não devessem entrar sem serem convidadas. Ou talvez as mães dos animais lhes tenham dito para não se aproximarem de estranhos, assim como a minha mãe me dizia.

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Então decidi não mais voltar ao bosque.
Bastava-me olhar para o refúgio, que era meu e dos animais, ouvir os seus misteriosos sons e sentir o cheiro fresco das plantas e flores... E sentia-me feliz!

Certo dia, acordei com um forte barulho e com o brilho do sol entrando no meu quarto. Abri a janela e vi que as árvores e as flores do bosque tinham sido quase que totalmente cortadas. Uma escavadora agitava a sua garra gigante.
Fiquei chocado e furioso.
A correr, desci as escadas e vi que os homens haviam colocado todos os galhos cortados numa pilha desordenada. As folhas que costumavam dançar ao vento estavam agora caídas no chão.
— Por que cortaram as árvores? — gritei para os trabalhadores.
O dono do terreno, que estava por ali, disse:
— Vamos levantar um grande prédio aqui, e essas árvores iriam bloquear os trabalhos.
— Mas não podem cortar esta árvore!
Com os braços ao redor do tronco, tentei proteger a velha figueira.
— Este terreno não é teu! — respondeu o dono, dando pontapés à árvore.
— Mas ela pertence a todos nós!
Eu estava tão nervoso que as minhas mãos até tremiam.
Mas arrastaram-me e empurraram-me para fora do lugar.

A minha mãe correu para mim e abraçou-me.
— O que aconteceu, João?
— Acabou, mãe! O nosso refúgio foi destruído!
Solucei e gritei durante o caminho até ao sótão.
Naquela noite, fiz um desenho após outro. Mas o meu coração não encontrava paz!
A escavadora trabalhava todos os dias.
Entre cabos de aço e cimento, um enorme monstro crescia, crescia e... crescia.
As folhagens das árvores iam desaparecendo, e eu não podia mais sentir o cheiro fresco de relva trazido pelo vento. As pétalas amarelas pararam de flutuar ao vento.
E, em silêncio, fechei a minha cortina.

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Naquele inverno, a minha asma voltou. E, por isso, limitava--me a ficar no meu pequeno sótão, observando a imensa sombra do lado de fora da janela. E as sombras também começaram a envolver o meu coração.

Certa manhã, ouvi um som familiar do lado de fora da minha janela. Abri as cortinas e vi muitos pequenos brotos que cresciam nos vasos, no parapeito da minha janela. E como eles brilhavam sob a luz do sol! Sabia agora que ia voltar a ver, da minha janela, o verde que pensara para sempre perdido!

You-Ran Zhang

Durante a minha infância, uma pequena floresta preenchia a minha imaginação. Era o meu refúgio. Havia tantas árvores bonitas! No outono, o brilho da árvore Flor de Ouro, com as suas pequenas flores amarelas, iluminava toda a floresta. Percebi que as árvores sorriam para mim. As flores amarelas logo se transformavam em fios de sementes vermelhas em formato de vagem, o presente mais precioso que as árvores podiam oferecer-me! Durante o dia, a luz do sol era filtrada por entre o topo das árvores e os raios multicoloridos davam à floresta um ar misterioso. À noite, os sons de corujas, sapos e outros animais misturavam-se numa sinfonia, estimulando a minha imaginação.
Mas, numa certa manhã, o som estridente de uma serra elétrica sacudiu-me e acordou-me, enquanto destruía a minha amiga de infância — a floresta. A escola primária do final da alameda decidira derrubar a exuberante floresta para "limpar o ambiente"! Apesar dos meus protestos e empenho para tentar salvar as árvores, eles continuaram a destruir a floresta toda. Sentia-me profundamente ferido. Tomado pela tristeza, também eu me sentia doente.
Queria tanto fazer algo por aquela pequena floresta e, assim, encontrar uma maneira de cicatrizar o meu coração ferido!
Decidi então escrever este livro em memória da minha amizade com a pequena floresta. É uma história que viverá dentro de mim para sempre...

No passado, muitos relatos semelhantes enfatizaram a destruição de grandes e luxuriantes ambientes. Neste livro, eu pretendo insistir na importância de TODOS cuidarmos do meio ambiente, redescobrindo a beleza de cada recanto do nosso bairro.

Shu-Nu Yan
Meu jardim secreto
São Paulo, Editora FTD, 2009
(Adaptação)

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