Global Social

Tutelada pelos homens através dos tempos, e apesar das conquistas obtidas nas últimas décadas, a Mulher ainda hoje luta para afirmar a sua liberdade.
Em múltiplas situações tem sido alvo de preconceitos, e é vítima de violência simplesmente por ser Mulher.

A jovem sempre admirara o vizinho, um jovem rei que passava horas a ler no seu jardim particular. Era tão bem-parecido! Se ele olhasse para cima e a notasse ali, espiando-o pela fresta da sua única janela, fechada por tábuas...

Há muito que sonhava com o dia em que poderia conversar com o seu soberano. Talvez ele também demonstrasse algum interesse por ela...

E assim, de sonho em sonho, a jovem não conseguia esquecer o príncipe. Um sonho impossível, diga-se de passagem, pois o seu irmão, o conde, trancara-a no quarto desde muito nova, logo após a morte dos pais, e espalhara a notícia de que ela também falecera. Tudo para herdar sozinho os bens da família.

Com a prisão, vieram as proibições: a irmã jamais voltaria a ter contato com outras pessoas. O que incluía os criados que lhe passavam água, alimentos e roupas por debaixo da porta. Nenhum deles tinha permissão de lhe dirigir a palavra.

Terá sido talvez por estar presa que a jovem tanto se interessara pelo rei. Era a única pessoa que ela conseguia ver, mesmo de longe, no meio da sua solidão.

Curiosamente, o palácio do rei e o palácio do conde dividiam uma única parede numa mesma lateral de construção. Por sorte, a referida parede era uma das do quarto da jovem. Quando se apercebeu disso, uma ideia foi tomando forma na sua mente.

Arranjaria uma maneira de contactar com ele.

Desde criança, o rei sempre dormira muito pouco, no máximo umas três horas por noite. Ao contrário do que se possa pensar, a falta de sono não o prejudicava. Estava sempre bem-disposto e ainda aproveitava as horas a mais para a leitura, a sua grande paixão.

Possuía, de facto, uma rotina. De madrugada ainda, após dormir o que julgava suficiente, pegava num livro, deixava o quarto e ia para o seu jardim. Aí acendia duas tochas penduradas no muro que dividia com o seu vizinho, o conde, sentava-se num banco de pedra e lia até ao amanhecer.

Numa dessas madrugadas, no final da primavera, descobriu que uma pessoa o observava, parcialmente oculta atrás de uma pilastra. Surpreso, olhou na sua direção. Ninguém ia ao jardim; todos sabiam o quanto o rei valorizava a sua privacidade durante aqueles tranquilos momentos de leitura.

— Quem está aí? — intimou.

Era uma jovem alguns anos mais nova do que ele. De pele muito clara, como se há tempos não tomasse sol, era pequena e delicada.

— Bom dia... — murmurou timidamente.

Viera do interior do palácio real, mas o rei não se lembrava de a ter visto em lugar algum. Talvez fosse uma criada que ainda desconhecesse as regras da casa. O seu vestido simples ajudava a confirmar a sua suposição.
Usava os cabelos delicadamente entrançados, e dela emanava um suave aroma a alfazema. O rei sorriu ao notá-lo.
Diante da sua reação, ela animou-se a sair do esconderijo.

— Posso perguntar de que trata o livro? — perguntou.
— É uma novela de cavalaria.
— Há personagens que sejam príncipes e princesas?
— Várias.
— E perigos?
— Muitos.

Quando se deu conta, o rei falava com interesse sobre o livro, o que geralmente acontece quando se gosta do que se está a ler.

— Desculpe — acabou por dizer. — Falo demais quando fico empolgado.
— É bom ouvi-lo.

Ele sorriu. Ela também.

— Posso emprestar-lhe o livro, se quiser — propôs o rei.
— Não sei ler.
— Desculpe. Esqueci-me de que a maioria das mulheres não sabe ler nem escrever.
— E não lhes é ensinado nada?
— A bordar, e a cuidar da casa e dos filhos.
— Por que motivo não podem também aprender a ler e a escrever?

O rei não encontrou uma resposta. Sempre fora assim e já ninguém se recordava do motivo.

— Fale-me de si — disse para mudar de assunto.

A jovem retraiu-se, mostrando constrangimento. Ele achou melhor não insistir.

— Aproxime-se — pediu. — Vou mostrar-lhe as letras.

Trémula de emoção, ela assentiu. Sentou-se ao seu lado e, mordendo os lábios, esperou que o rei lhe mostrasse o texto.

— Esta é a letra "a" — indicou. — E quando ela se une a outra letra, forma uma sílaba, que formará uma palavra e que poderá dar origem a uma frase e...
— Significa que tudo está ligado entre si?

O rei gostou daquele modo de ver o mundo.

— É verdade, tudo está ligado entre si — concordou. — E cada palavra tem um significado que se une a outro, e que formará um texto que...
— Como se o autor tecesse uma tapeçaria?
— Exato!

Era uma rapariga esperta, e ele admirava pessoas com quem pudesse manter uma conversa inteligente.

Ensinou-lhe outras letras, leu-as em voz alta, soletrou palavras. Não se apercebeu do nascer do sol e os primeiros raios que iluminaram o jardim e os arredores.

— Preciso de me ir embora! — avisou a jovem.

E, antes que ele pudesse impedi-la, correu para o interior do palácio real.

Na madrugada seguinte, a jovem estava de volta. O rei chamou-a para junto de si, ela anuiu e, juntos, retomaram a aula.

Durante semanas, aquela tornou-se a nova rotina noturna do rei. Não fazia perguntas sobre a vida da sua recente aluna para não a constranger. E, durante o dia, também não se preocupava em procurá-la entre os criados, pois eram muitas as tarefas que ocupavam as suas horas de trabalho como governante.

Embora muito apegado aos seus livros, ele decidiu emprestar-lhe um, não sem antes lhe fazer mil recomendações para que não riscasse as páginas e não o abrisse demasiado, para não estragar a encadernação...

Como se carregasse o mais valioso dos tesouros, ela desapareceu depois no interior do palácio, ao nascer do dia.

Demorou bastante a devolvê-lo. Mas, a cada dia, conseguia ler alguns parágrafos e comentava o que lia com o rei. Às vezes não entendia o significado de uma palavra mais difícil, e outras vezes precisava de informações complementares sobre geografia ou outras áreas do saber, para entender certos pormenores da narrativa. À exceção disso, sentia-se empolgada por aquela história repleta de aventura e romance.

Com o tempo, foi começando a ler cada vez mais rapidamente, e o rei emprestou-lhe então um segundo livro. Repetiu as mesmas recomendações apenas por hábito. A jovem provara que sabia cuidar com muito carinho dos livros reais.

— Na história, havia uma princesa que administrava sozinha o próprio reino — comentou ela.
— Ah, é uma grande heroína! Até em armas pega quando a guerra se aproxima e...
— Uma mulher pode governar um reino?
— Se ela tiver direito ao trono, porque não poderá governar?
— O que é "ter direito"?

O jovem recostou-se no banco de pedra. Aquela madrugada fria anunciava a proximidade do inverno. Em breve teriam de mudar para um dos salões do palácio.

Ele falou sobre direitos e deveres, e sobre o que aprendera nos livros de filosofia e de história das civilizações. Quando quis citar um exemplo, emudeceu ao pensar no seu próprio reino, em que os súbditos tinham muito mais deveres do que direitos. As mulheres, então, eram as mais afetadas pelas decisões tomadas pelos homens.

A consciência desse facto deixou-o pensativo. Havia uma enorme diferença entre a teoria que encontrava nos livros e a prática de seu dia a dia como rei.

— Não sei se entendi —admitiu a jovem.
— E eu acho que só agora entendi — admitiu ele também.

Ao amanhecer, quando a viu partir, o rei seguiu-a com olhos cheios de carinho e de admiração. Graças àquela mulher tão especial, entendera o óbvio: que todos os seus súbditos, sem exceção, tinham também o direito de aprender a ler e a escrever.

— Escolas para as meninas também? — estranharam os conselheiros reais.
— Sim, para todos os meninos e todas as meninas -— confirmou o rei. — E para os adultos que ainda não tenham sido alfabetizados. É meu desejo que as escolas se espalhem por todo o reino.

Acatada a ordem, os conselheiros trataram de a fazer cumprir.

Naquela manhã, o rei não conseguiu parar de pensar na jovem. Venceu a tentação de procurá-la entre os criados, desejando ansiosamente a chegada da madrugada.

E também foi naquela manhã que a jovem entendeu que os livros que lia a tornavam mais consciente da realidade. Se havia uma princesa capaz de governar sozinha um reino, por que motivo tinha ela de viver aprisionada desde criança?

Letras, sílabas, palavras, frases, parágrafos, histórias... Se a ajudavam a alçar voos, porque estaria ela impedida de conhecer a liberdade?

Pela primeira vez, ousou pedir a um dos criados que chamasse o conde. Precisava de falar com ele.

O irmão, porém, não apareceu.

Aos poucos, a jovem prisioneira começou a sentir a revolta crescer no seu coração. Sufocava. Precisava com urgência de respirar um pouco de ar puro. Que a madrugada não tardasse!

Horas mais tarde, após a meia-noite, entrou no túnel que escavara na parede e que escondia atrás de uma tapeçaria. Rastejou por alguns minutos até sair do outro lado, já no interior do palácio real, atrás de um imenso quadro no alto de uma das escadarias. Era essa a sua passagem secreta para a felicidade.

Como era hábito, desceu silenciosamente os degraus e escapuliu-se para o jardim.

— Hoje demoraste — queixou-se o rei.

A jovem olhou para cima, para a sua janela fechada por tábuas.

— Vossa Majestade conhece o seu vizinho? — perguntou, sentando-se ao seu lado no banco.
— Sim, claro! É um conde, grande amigo meu. Valoroso cavaleiro, homem honrado, de confiança. Porquê a pergunta?

Uma tristeza imensa invadiu o coração da jovem. O rei jamais iria defendê-la contra um homem tão importante como aquele, ainda mais sendo amigo dele. Para piorar, seria a palavra de uma mulher contra a palavra de um valoroso e honrado cavaleiro, que teria a liberdade de sustentar qualquer mentira que desejasse.

— Por nada — mentiu. — É que vejo sempre aquela janela fechada e pergunto-me porque nunca se abre.
— Que janela? — perguntou o rei, virando-se para observar. — Aquela? Acreditas que nunca reparei que havia ali uma janela?

"Acredito", pensou a jovem, amarga.

— Hoje noto-te agitada — disse o rei. — E muito triste também. O que aconteceu?

Ela forçou um sorriso.

— Não mintas — pediu. — Eu conheço-te.

"Conhece mesmo, majestade?", pensou para si. Com grande esforço, conteve a vontade de chorar.

O rei acariciou-lhe o rosto, tentando adivinhar-lhe os pensamentos. Aproximou-se, a jovem sentiu-lhe a respiração demasiado próxima... E o gosto de um beijo delicioso.

E assim decorreu aquela madrugada...

O rei despertou com a claridade do sol a bater-lhe no rosto. Apesar da habitual falta de sono, adormecera. E ainda por cima ao relento, no meio de um canteiro de flores.

Fazia frio. O rei encolheu-se sob o seu manto e, sentindo ainda o sabor dos beijos da jovem, deu por si sozinho no jardim.

Naquela manhã, resolveu procurá-la por entre a criadagem. Não a encontrou. E o mais intrigante é que não existia nenhuma criada que correspondesse à descrição feita por ele. Na capital do reino, onde se encontrava o palácio real, os guardas também não foram capazes de a encontrar.

— Essa mulher existe mesmo, Majestade? — perguntou o comandante da guarda. — Ninguém desaparece assim tão rapidamente, como se fosse fumo.

O rei não respondeu. Controlou a sua impaciência, certo de que a encontraria de madrugada.

O que ele não podia adivinhar é que, naquela manhã, o conde entrara no quarto da irmã pela primeira vez em muitos anos. Primeiro, discutiu com ela por ter tentado falar com o criado e, depois, por achar que tinha o direito de chamar o irmão.

E foi nesse momento que a prisioneira finalmente entendeu o que significava ter direitos.

— Porque não posso viver em liberdade? — atreveu-se a perguntar.

O conde estreitou os olhos.

— De onde tiraste essa ideia? — perguntou com desconfiança.

Passando em revista o quarto, reparou na fresta entre as tábuas da janela.

— Claro, é a espiares o mundo que arranjas essas ideias — deduziu.

E ordenou imediatamente a um dos criados que trouxesse pregos, martelo e um pedaço de madeira. E, para garantir que não haveria falhas, ele próprio vedou a fresta.

— Agora sim — disse, satisfeito.

Nem mesmo um fio de luz seria capaz de penetrar naquele ambiente opressivo.

— Liberta-me, irmão, por favor! — ela implorou. — Dou-te a minha palavra que não irei reivindicar a minha parte da herança.

O conde pareceu apanhar um choque.

— Onde foste buscar mais essa ideia? — preocupou-se.
— Que ideia?
— De que tens direito à minha fortuna!
— E porque não teria?

Mais uma vez ele passou em revista o aposento, chegando à conclusão de que oferecia muito espaço para a irmã circular.

— Claro, é por teres tanto espaço que te lembraste disso — deduziu.

E ordenou de imediato a um dos criados que trouxesse água, cimento, pá e uma resistente corrente de ferro. E, para garantir uma vez mais que não haveria falhas, ele próprio abriu um buraco no chão, colocou nele uma das extremidades da corrente, preparou o cimento, usou-o para cobrir tudo, e depois prendeu a outra extremidade à volta de um dos tornozelos da irmã.

— Agora sim — disse, mais satisfeito.

Chorosa, a jovem achou preferível guardar silêncio.

— É melhor estares aqui, viva, do que morta, dentro de um caixão — disse-lhe o irmão à laia de conforto. — Não duvides de que te mato se voltares a falar com os criados.

A madrugada veio e a jovem não apareceu. Preocupado, o rei andava de um lado para o outro no jardim. Vigiava a pilastra atrás da qual a jovem se escondera da primeira vez que a vira, observava a porta por onde ela costumava entrar e sair, percorria com os olhos todo o jardim, as paredes externas dos dois palácios vizinhos, e reparou, de súbito, que a janela fechada com tábuas parecia diferente — "parece-me que havia uma fresta ali" — e, cada vez mais nervoso, voltou a concentrar-se na porta.

O dia mal tinha acabado de nascer e já ele ordenava aos guardas que partissem em busca da jovem e percorressem todo o reino sem esquecer as zonas mais recônditas.

Novas madrugadas vieram, insones e deprimentes. "Ela nunca mais voltará...", desesperou-se o rei.

Com a chegada do inverno e das suas neves, tornou-se impossível ir ao jardim, o que só aumentou o seu sofrimento.

— Como pode alguém desaparecer desta forma? — perguntava aos seus conselheiros.

Não havia uma resposta. Pelo menos não uma que conhecessem.

O inverno terminou e a tristeza do rei permaneceu, para preocupação dos seus súbditos. Continuava a ser um soberano responsável, cumpridor das suas obrigações e cada vez mais interessado em governar melhor e com mais justiça para todos. Mas o seu abatimento não passava despercebido a quem tinha por ele verdadeira estima.

A primavera trouxe-lhe em seguida madrugadas agradáveis que ele passou no jardim, tentando distrair-se com as suas leituras. "Sinto que algo de terrível lhe deve ter acontecido", pensava frequentemente. "Ela precisa de mim!"

Mas foi somente numa madrugada quente de verão que o comandante da guarda apareceu no jardim empunhando um livro.

— É vosso, não é, Majestade? —quis confirmar.

Sim, era. E justamente o último que emprestara à jovem.

— O-onde conseguiu isso, comandante?
— Venha comigo, Majestade. É melhor ver com os seus próprios olhos.

No alto de uma das escadarias do palácio real, um guarda esperava por eles. Segurava uma criança adormecida e embrulhada num vestido.

— O livro estava junto com este recém-nascido, que encontrámos aqui mesmo, aos pés daquele quadro — explicou o comandante, ao mesmo tempo que indicava a pintura do austero bisavô do rei, de coroa na cabeça e pose majestosa.

— E porque abandonariam uma criança? — perguntou o rei, confuso, dirigindo-se ao guarda, que reprimia um sorriso. — Foi você que o encontrou?
— Sim, Majestade.
— E viu mais alguém? A mãe dele, talvez?
— Majestade, nós temos uma teoria — disse o comandante. — Este bebé tem poucas horas de vida. E se o senhor fizer as contas... Bom, a jovem que procuramos desapareceu há mais ou menos nove meses.
— E o que tem isso a ver com?...
— O bebé é a sua cara, Majestade! — atropelou o guarda, sem poder conter-se mais.

O rei franziu a testa. De súbito, encontrou a explicação.

— Porque sou eu o pai — disse, perplexo.
— Essa é a nossa convicção — explicou o comandante. — Achamos que a rapariga deixou o menino aqui, juntamente com o livro, para que Vossa Majestade soubesse quem o trouxe, e depois desapareceu de novo.
— É um menino? — emocionou-se o rei.

O bebé tinha cabelos claros como os seus e o mesmo formato de testa e nariz.

— Vossa Majestade reconhece o vestido que envolve a criança? Pertence à jovem?

Ele encolheu os ombros. Os vestidos pareciam todos iguais!

— E como acha que ela entrou aqui e saiu sem ser vista? — perguntou.
— Ainda não temos uma explicação para isso, Majestade.

O rei franziu as sobrancelhas, analisando o local em que o bebé fora deixado, a parede ao fundo, o quadro do bisavô. Obedecendo a uma intuição, deslocou a pintura para a esquerda.

Surpreso, descobriu que ocultava um túnel aberto no interior de uma estrutura de madeira e pedra, frágil o suficiente para ser escavada com as próprias mãos.

— O que há do outro lado? — quis saber.
— O palácio do conde — disse o comandante.
— Geminado apenas deste lado do nosso palácio, certo?
— Sim, Majestade.
— Parece que o enigma foi solucionado, não? — alegrou-se o guarda, enquanto embalava o bebé numa atitude bastante paternal.
— Ainda não — disse o rei. — Comandante, arranje agora mesmo a planta do palácio do conde. Vou estudá-la e então... Veremos o que de facto está a acontecer.

Após arrastar-se de volta ao quarto, a prisioneira voltou a colocar a corrente em redor do tornozelo. No desespero para salvar o filho que trouxera sozinha ao mundo, torcera o próprio pé para se libertar. A seguir, lutando contra a dor, levara-o ao palácio real. Ali o menino estaria em segurança, tinha a certeza.

Naquela altura, o rei já devia ter-se esquecido dela e, distraído como era, nem se preocuparia em fazer as contas. O menino acabaria no orfanato do reino. Abandonado, mas vivo. Quanto a ela, restava-lhe acreditar que o conde jamais descobriria as suas roupas sujas de placenta e de sangue do parto, que escondera atrás da tapeçaria.

Desde que a ameaçara de morte, ele não voltara a entrar no quarto. Isso permitira que a jovem tivesse uma gravidez sem sobressaltos, apesar do medo crescente. Se o conde descobrisse a criança, iria matá-la, a irmã não tinha a menor dúvida. Seria um herdeiro a menos. Além disso, nunca acreditaria se ela lhe contasse quem era o pai.

E depois, com muita sorte... Se o conde não encontrasse o túnel, e se ela conseguisse lidar com a entorse, que não sabia como tratar... Talvez pudesse sair de vez em quando, furtivamente, para visitar o filho no orfanato.

Essa era a esperança que a mantinha viva. E a única, pois desistira, havia muito, de conhecer a liberdade. Como único homem da família, o conde tinha plenos poderes sobre a irmã. Era a tradição.

Se tentasse fugir, ele cumpriria a promessa de a matar.

O conde ficou muito contente com a visita do rei, que, sem convite, aparecera para jantar. Recebeu-o à porta e, sorridente, conduziu-o ao salão, onde ordenou que os criados lhe servissem a melhor das refeições. Jantaram, conversaram, e o rei riu-se com as piadas que o conde sabia contar como ninguém. Já o serão ia avançado quando o soberano desferiu a pergunta:

— Outro dia, no meu jardim, reparei que uma das janelas do seu palácio está fechada com tábuas. E tentei perceber qual seria o motivo...
— Ah, Majestade — disse o conde, fingindo algum pesar. — Aquele era o quarto da minha irmã mais nova. Lembra-se dela?
— Na verdade, não.
— Ela morreu dias após o falecimento dos meus pais naquele trágico acidente de carruagem. Tão criança ainda... Uma pena.
— Morreu de quê?
— Doente. Era muito frágil, a pobrezinha.
— E porque está a janela trancada?
— O quarto ficou fechado até hoje. Nunca mais tive coragem de lá entrar.
— E faz tempo, não? Uns dez anos?
— Sim.
— Se estivesse viva, quantos anos teria a sua irmã?
— Seria uma jovem.

Encheram as suas taças de vinho e brindaram à memória dos parentes falecidos. O rei elogiou a bebida, e perguntou se poderia visitar a adega. Envaidecido, o conde disse que seria uma honra mostrar-lhe o local.

Deixaram o salão, indo o conde à frente, enquanto discorria sobre vinhos e exibia os seus conhecimentos sobre o assunto. À entrada da adega, virou-se para o rei e, espantado, constatou que estava sozinho.

Durante o trajeto, o rei tinha virado à esquerda, e subira a correr uma escada. Encontrava-se num dos corredores do palácio a consultar mentalmente a planta que memorizara em pormenor, quando descobriu a porta do único quarto que tinha uma janela fechada com tábuas.

Tentou abri-la. Estava trancada.

— Majestade? — ouviu a voz do conde nos primeiros degraus da escada. — Está perdido?

Com um forte pontapé, o rei arrombou a porta. Como o interior do aposento estava inundado de escuridão, pegou numa das tochas acesas do corredor e entrou.

A mulher que ele amava tinha um dos tornozelos preso a uma corrente. Sentada no chão, junto à janela, tremia de medo. Levou alguns segundos para o reconhecer e, então, sorriu timidamente.

— Ser o soberano não lhe dá o direito de invadir a minha casa! — criticou o conde, surgindo atrás do rei.
— Esta é a sua irmã, não é? Na minha opinião, parece bem viva.
— Isso é assunto de família, Majestade. Como manda a tradição, ela está sob minha tutela.
— E como também manda a tradição, ela está agora sob a tutela do marido. Ou por acaso pretende manter a minha rainha como sua prisioneira?

O conde engasgou-se e, pasmado, só conseguiu balbuciar:

— C-como?

Nesse momento, o comandante da guarda e mais três subordinados saíram de trás de uma tapeçaria. Vinham do túnel, armados e com ar ameaçador.

— Além de rainha, a sua irmã é a mãe do meu primogénito — declarou o rei com tranquilidade. — Atrever-se-ia, caro conde, a separar uma família feliz?

A jovem foi levada para o palácio real, onde pôde reaver o filho e restabelecer-se na companhia do marido e dos inúmeros livros que leriam lado a lado.

Como mandava a tradição, o rei exigiu que o dote do casamento fosse pago pelo único parente homem da sua esposa. O conde nem protestou. Abriu mão de uma quantia considerável, a mesma a que a irmã tinha direito como herdeira da fortuna da família. E teve ainda de suportar o desprezo do reino inteiro, pois os súbditos preferiram ser solidários com uma rainha que se tornou tão admirada como o marido.

Uma mulher que conhecia as letras, as sílabas, as palavras, as frases, os parágrafos...

E as histórias.

Helena Gomes
Princesas, bruxas e uma sardinha na brasa:
contos de fadas para pensar sobre o papel da mulher
São Paulo (SP): Biruta, 2017
(Adaptação)

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