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A pandemia tem exposto aquilo que constitui a fragilidade da nossa cultura, ou seja, que as pessoas que tornam o nosso quotidiano possível são, frequentemente, as que têm os empregos mais precários e mal pagos. Por muito feliz que me sinta por haver profissionais a contribuir para o meu bem-estar, a verdade é que estou completamente dependente das pessoas que semeiam, colhem e distribuem alimentos. Das pessoas que repõem os artigos em falta nas prateleiras das mercearias, que nos atendem nas caixas dos supermercados, que se prontificam a fazer compras para idosos ou portadores de imunodeficiência. Das pessoas que recolhem o lixo e controlam os sistemas de água e resíduos. E, claro, dos prestadores de cuidados de saúde.

Não seria precisa uma pandemia para sabermos que a nossa cultura sofre de uma inversão de valores e recompensas. Mas talvez seja precisa uma pandemia para nos mostrar que dependemos completamente de ecossistemas seguros, que não permitem que um vírus como o coronavírus saia do seu nicho evolutivo. Quando destruímos este nicho, o vírus começa a migrar para outros lugares. Se puxarmos por um fio, ameaçamos o tecido todo. Quando puxamos por muitos fios ao mesmo tempo, todo o tecido se desintegra. Serão precisos anos para abarcarmos o efeito total desta pandemia. Contudo, já é possível constatar-se que estamos totalmente, intimamente e, por vezes desesperadamente, interrelacionados.

A interconexão é um dos poderes do universo de que fala o cosmólogo Brian Swimme. Cada flor, cada folha, cada tronco de árvore ou cogumelo existe em função de uma teia de relações que abrange o ar, a água, os fungos, os micróbios, os insetos, as outras plantas, o solo onde mergulham as suas raízes, os seres que crescem nessas raízes, e a rocha que constitui o solo e se vai dissolvendo lentamente. Todos esses seres sabem que estão relacionados. Cheiram-se e procuram-se uns aos outros, avisam-se mutuamente dos perigos a evitar. As árvores sustentam e protegem os seus rebentos, e transmitem mensagens através de canais de fungos inteligentes. Nenhuma semente abrirá a sua casca a não ser que saiba que está tudo a postos para o seu crescimento. Mesmo que tenha de esperar décadas ou séculos para o fazer.

Sem a floração das plantas, não haveria legumes, frutos, sementes ou alimentos que permitem que os animais cresçam e se desenvolvam. Sem folhas não haveria oxigénio. Sem a presença dos minúsculos e brilhantes cloroplastos nos triliões de folhas ondulantes um pouco por todo o globo, as plantas nunca cresceriam.

Sem as bactérias primitivas, que dão origem aos cloroplastos e a todos os outros seres, o nosso planeta não seria mais do que rocha e água. Se a terra nunca tivesse desenvolvido uma relação com o sol, só haveria rochas flutuantes neste lado da galáxia. E se as galáxias nunca se tivessem formado e não tivessem gerado milhões de estrelas nesse processo, nunca teria havido um sol.

Quando fala de interconexão, Brian Swimme considera que toda esta vasta sequencialidade interdependente é um dado adquirido. Para que este planeta vivo floresça, tem de haver algo que encoraje esta intrincada teia de relações. Tem de haver o cuidado, ou seja, a capacidade que os seres vivos têm de estimular as vidas de outros seres vivos.

Mas de onde surgiu o cuidado? Não é uma invenção humana, já que o vemos na forma como as árvores cuidam dos seus rebentos. Quando afugentam os predadores, os peixes e os répteis também revelam cuidado para com a sua prole. Os primatas fazem o luto pelas mortes dos membros da sua comunidade alargada. Os seres humanos são capazes de expandir esse cuidado para além das suas famílias e tribos, de forma a alcançar as gerações futuras.

Faz, pois, sentido, que a evolução favorecesse o desenvolvimento de hormonas e neurotransmissores de forma a potenciar o cuidado parental. Os seres vivos estariam, assim, mais

apetrechados em termos de sobrevivência e reprodução, o que favoreceria a continuidade da espécie. Desenvolver as emoções para potenciar o sentido de comunidade faz com que todas as formas de vida prosperem. O trabalho em conjunto faz com que os grupos vivam mais e mais saudavelmente, e ajuda a ultrapassar melhor os obstáculos.

Brian Swimme postula que a existência e o desenvolvimento do cuidado são inerentes à força criativa que apelidamos de cosmos. Segundo ele, o plasma primordial continha já a possibilidade de vida, de consciência, de cuidado.

Por um lado, nada disto é novo. As narrativas sobre os nossos antepassados, sobre os nossos deuses e sobre as nossas culturas religiosas assumem a existência de uma energia cuidadora a operar no seio do mundo. As tradições que enformam as nossas vidas pedem-nos que ajamos com compaixão e cuidado. A ética de compaixão judaica é o axioma central dos ensinamentos de Jesus. Há cinco séculos, Buda transformou a compaixão num dos pilares do Budismo, juntamente com a sabedoria. Dois mil anos mais tarde, o Dalai Lama diz-nos que, sem compaixão, não conseguimos sobreviver. As tradições autóctones demonstram ainda uma maior compaixão quando a estendem à terra e a todos os seus seres e elementos.

Revejo-me nas reflexões de Swimme sobre o que significa para nós deixar-nos conduzir pelo poder inter-relacional do universo. As nossas tradições mostram que o fazemos desde há milénios. A razão pela qual esse poder é tão fraco na nossa cultura não tem a ver com o facto de não querermos que a compaixão faça parte da vida na terra. Não só o queremos como alguns de nós se esforçam denodadamente para que isso aconteça. Contudo, a nossa cultura industrial baseia-se em histórias que não promovem o cuidado. As narrativas da nossa cultura industrial promovem a utilização. "A utilização pressupõe que as coisas não têm um significado intrínseco e independente. O seu sentido só se manifesta a partir do momento em que entram no nosso processo de produção."

Muito antes da industrialização, já as nossas histórias promoviam o militarismo, a desigualdade, o poder e o dinheiro. E continuam a fazê-lo, como atesta o exemplo de Silicon Valley, que enriqueceu e enriquece à custa de artigos interessantes mas supérfluos. A apenas alguns quilómetros dali, ficam as quintas onde os trabalhadores verdadeiramente essenciais ganham tão pouco que nem conseguem comprar os produtos agrícolas que apanham. "É extraordinário como uma simples fração da humanidade pode tomar decisões sobre que espécies vão viver e que espécies vão morrer." Sobre que espécies prosperarão e que espécies definharão.

Embora as nossas narrativas nos digam "que existem outros seres para nosso uso, acredito que a nossa imaginação pode mostrar-nos outras formas de esses seres virem a ser úteis a si mesmos e a todos nós. Acredito que a nossa imaginação pode mostrar-nos outras formas e outros valores pelos quais devemos reorientar a nossa sociedade."

É esta imaginação que permite que nos abramos ao poder da interconexão e que permite que ele opere através de nós de forma mais cabal. A verdade é que a nossa imaginação expande o conceito de cuidado. Redefine prioridades e valores. Inclui a terra inteira e não apenas uma espécie. Vê um mundo que pode vir a existir. E nada disto é novo. As nossas narrativas religiosas, políticas e filosóficas estão cheias de imaginação, de potencialidade. Hoje, contudo, encontramo-nos perante uma urgência que nunca antes vivenciámos. Os conceitos que temos de deixar para trás não estão apenas gastos, são altamente tóxicos. Se a pandemia o revela de forma tão vívida é porque é profundamente devastadora e rápida. A alteração climática é igualmente urgente e também ela deriva do facto de termos ignorado a interconexão. Tal como o são a pobreza, a fome e tantas outras questões que enfrentamos. São as nossas ideias distorcidas sobre ambição, domínio e exploração que nos têm impedido de lidar com elas.

Se o mundo está cheio de pessoas cuidadoras e compassivas, porque deixamos que a nossa agenda seja marcada por aquelas que não o são? Porque deixamos que as nossas narrativas apoiem os poderosos, os gananciosos e os cruéis? São estas as perguntas que o poder da interconexão quer que façamos. O que fez com que não honrássemos esta energia profunda, que preside a toda a vida e que está ela própria tão cheia de vida? O que fez com que limitássemos o seu alcance? Que ignorássemos as suas implicações? Que revolução poderíamos nós despoletar se assumíssemos esse poder? O que vamos perder se o ignorarmos?

Vamos perder tudo. Se não nos abrirmos às enormes implicações do poder da interconexão, estaremos a arriscar tudo. Estamos sempre a puxar demasiados fios. A pandemia mostra-nos que não estamos preparados para o que acontece quando destruímos o tecido do mundo. Mostra-nos o quanto ainda temos para fazer.

Como lidar com a quantidade de tarefas que ainda temos pela frente? Como mudar, de forma a criar uma cultura justa e sustentável? Comprometendo-nos. Todos os poderes do universo, sobretudo o poder da interconexão, nos pedem que nos comprometamos com as imensas energias que nos oferecem. O que cada um fizer pode parecer uma ninharia num campo tão vasto de necessidades urgentes. Mas os tecidos não são feitos com fios heroicos. Os tecidos são o resultado do paciente entrelaçar de inúmeros fios estreitos. E todos estes fios são fundamentais para formar a tapeçaria da vida na terra. O tronco de árvore mais robusto não pode existir sem os filamentos mais frágeis das suas raízes.

É fascinante ver como algumas das divindades mais poderosas dos nossos antepassados eram deusas que presidiam à tecelagem. Atena, a deusa grega da sabedoria, era uma delas. No Antigo Egito, dizia-se que a deusa Nit tinha tecido o próprio mundo. Entre as muitas áreas de saber a que presidia a deusa maia Ixchel, contavam-se a medicina, o parto, a terra e a tecelagem. A deusa maori Hineteiwaiwa presidia ao mundo do feminino, dos nascimentos e da tecelagem e a deusa celta Arianrhod era representada a fiar a tapeçaria da vida com uma roda de prata. Tudo isto demonstra como tecer o nosso destino a partir dos fios a que vamos dando vida é uma tarefa lenta, repetitiva e árdua. Contudo, é uma das nossas tarefas mais cruciais.

A tapeçaria que a interconexão nos faz tecer é infinitamente rica e complexa. Há sempre novas relações a descobrir e tudo deve ser feito com o maior cuidado e compaixão. "A maravilha do cuidado é que permite que tanto aconteça. Devoção, serviço, alimento. O que seria de nós sem o cuidado?" Brian Swimme acredita que, nesta etapa da evolução, estamos à procura do nosso lugar no cosmos. E que não devíamos ignorar o facto de que "o cuidado está a tentar assumir um papel abrangente no nosso planeta." A consciência reflexiva dos seres humanos pode providenciar os meios para que tal aconteça. O cuidado, "omnipresente no universo desde os primórdios," está à espera de que lhe forneçamos novas formas de exprimir e expandir a sua energia.

Betsey Crawford

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