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Estendida sobre um leito repleto de flores, debaixo de uma campânula de cristal, dormia a Bela Adormecida.

Era bela, boa e sensata, mas a sua beleza, bondade e sensatez dormiam com ela. Existia, mas adormecida, que era como se não existisse. Através da campânula transparente só se via a sua beleza, não as suas qualidades de caráter. Encontrava-se mergulhada, desde tempos imemoriais, num sono profundo, rodeada de afáveis gnomos que a defendiam de bandidos e animais selvagens. Eles sabiam que só um Príncipe Errante teria o direito de se aproximar dela. Mas não era certo que o Príncipe chegasse, e também não era certo que não chegasse.

Qual não foi, pois, a alegria dos fiéis gnomos quando, numa manhã de maio, viram chegar o Príncipe que, por um feliz acaso, se havia deixado levar até àquelas paragens.

— Aqui! Aqui! — gritaram-lhe os gnomos, levantando em seguida a campânula de cristal.

O Príncipe aproximou-se. Observou-a e reconheceu que se tratava da Bela Adormecida. Deixando-se levar por um poderoso impulso, inclinou-se e depositou um beijo sobre os seus pálidos lábios rosados. Exatamente como estava previsto que fizesse.

A Bela Adormecida abriu os olhos, despertou, e viu o Príncipe inclinado sobre ela. Pôs os braços em torno do seu pescoço enquanto os gnomos dançavam à sua volta cheios de alegria. E também contentes porque finalmente tinha terminado a sua guarda à Bela Adormecida e podiam retomar as suas vidas e dedicar-se aos seus afazeres.

Os gnomos tinham-se afastado, saltando de júbilo, enquanto o Príncipe permanecia entre os braços da Bela Adormecida e ela persistia no abraço. Até que começaram a doer-lhe as costas, de modo que, inadvertidamente, se sentou na borda da cama. Mas, como permanecia inclinado sobre ela, e por ela abraçado, era-lhe de todo impossível mudar de posição. Assim, passado algum tempo, perguntou:

— E agora? O que se segue?

— Agora ficamos assim para sempre — respondeu a Bela Adormecida.

— Para sempre? — redarguiu o Príncipe surpreendido.

— Claro. Então não foi para isso que me acordaste, depositando o teu beijo sobre os meus pálidos lábios rosados?

— Mas, minha querida Bela Adormecida, não iremos aborrecer-nos?

— Não entendo o que queres dizer. A felicidade é isto.

O Príncipe calou-se, confuso, e não discutiu mais pois não queria ficar mal. Mas, ao cabo de uns momentos voltou a tentar, desta vez apresentando o seu ponto de vista subjetivo como uma verdade objetiva.

— Olha, minha querida Bela Adormecida, de um ponto de vista subjetivo, estou totalmente de acordo contigo, mas, objetivamente, as coisas passam-se assim: sou um Príncipe Errante, programado, isto é, destinado a percorrer o mundo em busca de Belas Adormecidas. Sempre que vejo uma Bela Adormecida, aproximo-me e deposito um beijo nos seus pálidos lábios rosados. Ela desperta então, mas o que acontece depois já não me diz respeito. Por este motivo tenho de me pôr de novo a caminho.

— Mas de que Belas Adormecidas estás a falar? Eu sou A Bela Adormecida!

— Sim, sem dúvida. Bela, evidentemente, mas já não Adormecida. Já não estás a dormir, enquanto outras, pobrezinhas, continuam a dormir profundamente, esperando que alguém as desperte.

— Que outras? — perguntou a Bela Adormecida, num tal tom que o Príncipe preferiu não discorrer mais sobre o tema.

— As que forem. Não tem importância.

À Bela Adormecida bastou-lhe esta resposta incompleta, porque, como já se disse, era sensata. Só que agora, foi ela quem tentou apresentar ao Príncipe o seu ponto de vista subjetivo de uma maneira objetiva:

— Tens razão quando dizes que sou uma Bela já não Adormecida. Mas, no fim de contas, foste tu quem me acordou e agora já não voltarei a adormecer. De modo que, se te fores embora, e eu não puder ter-te mais nos meus braços, quem serei eu e o que será de mim?

O Príncipe sentiu-se triste.

— Isso é realmente um problema e estou convencido de que este conto está muito mal escrito. O autor programou-nos de uma forma em que as coisas batem certo só até um dado ponto e, depois, começam as contradições. Fiquemos, pois, nesta posição e talvez o autor se dê conta, apague, acrescente ou mude algo... Talvez então o assunto se clarifique...

Isto foi o que o Príncipe disse, mas as costas doíam-lhe cada vez mais. É que ele entendia bem a situação da Bela Adormecida e simpatizava deveras com ela. Permaneciam na mesma posição, mas nem a Bela Adormecida era feliz, porque não sentia que ficariam assim para sempre, nem tão-pouco o Príncipe, porque não lhe parecia que fosse apenas por algum tempo. Até que o Príncipe disse finalmente:

— Sinto uma incontrolável vontade de fumar, mas acabaram-se-me os fósforos. Permites‑me que me ausente um pouco para ir arranjá-los?

— Mas... voltas? — perguntou a Bela Adormecida, que era muito sensata.

— Claro que volto. Só vou arranjar fósforos e volto logo. Tenho uma vontade enorme de fumar.

A Bela Adormecida ficou pensativa. Por um lado, a sua sensatez impunha-lhe ceticismo, por outro, a sua bondade — porque era boa — fazia com que sentisse pena do Príncipe, atormentado pela avidez da nicotina. Não podia torturar assim o seu amado e disse-lhe com tristeza, já que a sensatez e a bondade não se punham de acordo:

— Vai.

E o Príncipe foi. Era verdade que tinha imensa vontade de fumar e que precisava de fósforos. Nisto era sincero. Quanto ao resto... Tinha a esperança de que, graças a esta verdade parcial, pudesse aligeirar o peso que sentia na consciência. Porque o resto era mentira. E assim, o Príncipe partiu com a esperança de que uma verdade parcial compensasse, na sua consciência, a mentira total. Mas era uma esperança infundada.

E não tardou a descobrir quão infundada era essa esperança. É que, de castigo, foi transformado num repugnante sapo. E permanecerá um sapo, até que — segundo um outro conto — encontre uma certa Bela com tão bom coração que, ignorando a asquerosidade do batráquio, deposite, com os seus pálidos lábios rosados, um beijo sobre o pustuloso bicho.

Só então voltará a ser um Príncipe.

Slawomir Mrozek
La vida difícil
Barcelona: Acantilado, 2002
(Tradução e adaptação)

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