Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita
Programa III: As Leis Morais

Ano 1 - N° 49 - 30 de Março de 2008

THIAGO BERNARDES
thiago_imortal@yahoo.com.br
Curitiba, Paraná (Brasil)

As privações voluntárias

Apresentamos nesta edição o tema no 49 do Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita, que está sendo aqui apresentado semanalmente, de acordo com programa elaborado pela Federação Espírita Brasileira, estruturado em seis módulos e 147 temas.

Se o leitor utilizar este programa para estudo em grupo, sugerimos que as questões propostas sejam debatidas livremente antes da leitura do texto que a elas se segue. Se destinado somente a uso por parte do leitor, pedimos que o interessado tente inicialmente responder às questões e só depois leia o texto referido. As respostas correspondentes às questões apresentadas encontram-se no final da lição.

Questões para debate

1. Como podemos conceituar privação? E em que consiste a privação voluntária?

2. A privação voluntária deve ter limites?

3. Quais privações voluntárias são mais meritórias?

4. Alimentar-se de carne é para o homem da atualidade uma prática correta ou um equívoco?

5. A carne é indispensável à subsistência humana?

Texto para leitura
A privação voluntária deve ter limites

1. A palavra privação tem, segundo os dicionários, o sentido de “despojar, desapossar alguém de alguma coisa; destituir, tolher, fraudar”. Privação voluntária consiste, porém, em renúncia consciente a bens, favores, gozos, facilidades ou direitos a que se tem acesso ou posse natural e legítima.

2. A verdadeira privação voluntária é a que se dá em benefício do próximo, quer para auxiliá-lo materialmente ou espiritualmente. Há grande mérito quando os sofrimentos e as privações objetivam o bem do próximo, porquanto a caridade feita com sacrifício é sempre mais meritória.

3. A privação voluntária deve ter, porém, limites. Recomenda a doutrina espírita que, no que diz respeito à existência terrena, é preciso que nos contentemos com as provas que Deus nos envia, sem lhes aumentar o volume, que já é, por vezes, tão pesado. Aceitá-las sem queixumes e com fé, eis o que o Criador exige de nós.

4. O homem não deve enfraquecer o corpo com privações inúteis e macerações sem objetivos, porque necessitamos de todas as nossas forças para cumprir a missão que devemos desempenhar na Terra. Torturar e martirizar voluntariamente o corpo físico é contravir a lei de Deus, que nos dá meios de o sustentar e fortalecer. Enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio.
São inúteis as privações ascéticas de certos religiosos

5. Há privações voluntárias que são meritórias ao progresso individual. É o caso, por exemplo, do indivíduo que se priva dos prazeres do mundo para auxiliar o próximo. Pelo seu trabalho, pelo emprego de suas forças, de sua inteligência e seus talentos, ele reúne recursos com que concretiza seus generosos propósitos.

6. Essas privações são meritórias porque implica privar-se de gozos inúteis, desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma. Meritório é, sem dúvida, resistir à tentação que arrasta o indivíduo aos excessos, ao gozo de coisas inúteis. E mais ainda o é tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de um simulacro, evidentemente será uma irrisão.

7. Os ensinos espíritas nos mostram que são inúteis as privações ascéticas que se observam em alguns religiosos. Com relação a elas, os imortais nos dizem: “Procurai saber a quem elas aproveitam e tereis a resposta. Se somente servem para quem as pratica e o impedem de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendem de colori-la. Privar a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã”. (O Livro dos Espíritos, item 721.)

8. Muitas pessoas, quando passam a apreender um certo conhecimento espiritual, começam a abster-se de certos alimentos, principalmente a carne, por compreenderem que a ingestão de vísceras animais constitui comportamento contrário à lei da Natureza.
Alimentar-se de carne é um equívoco lastimável

9. Tratando desse tema, disseram os imortais, na questão 723 d’ O Livro dos Espíritos: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização”.

10. Emmanuel, contudo, nos alerta: “A ingestão das vísceras dos animais é um erro de enormes consequências, do qual derivaram numerosos vícios da nutrição humana. É de lastimar semelhante situação, mesmo porque, se o estado de materialidade da criatura exige a cooperação de determinadas vitaminas, esses valores nutritivos podem ser encontrados nos produtos de origem vegetal, sem a necessidade absoluta dos matadouros e frigoríficos”. (O Consolador, pergunta 129.)

11. O Instrutor Alexandre reporta-se ao assunto no livro Missionários da Luz, psicografado por Chico Xavier, em que lembra que nós os terráqueos, a pretexto de buscar recursos proteicos, exterminamos frangos e carneiros, leitões e cabritos incontáveis. Sugamos os tecidos musculares, roemos os ossos e, não contentes em matar os pobres seres que nos pedem roteiros de progresso e valores educativos, para melhor atenderem à Obra do Pai, dilatamos os requintes da exploração milenária e infligimos a muitos deles determinadas moléstias para que nos sirvam melhor ao paladar. O suíno comum é enclausurado em regime de ceva, para adquirir banhas doentias e abundantes. Gansos são postos nas engordadeiras para que hipertrofiem o fígado, de modo a obtermos pastas substanciosas destinadas a quitutes famosos. Em nada nos dói o quadro comovente das vacas-mães levadas ao matadouro, para que nossas panelas transpirem agradavelmente, esquecidos de que tempos virão para a Humanidade terrestre em que o estábulo, como o lar, será também sagrado e que em todos os setores da Criação nosso Pai colocou os superiores e os inferiores para o trabalho de evolução, através da colaboração e do amor, da administração e da obediência. (Missionários da Luz, cap. 4, págs. 41 e 42.)
A carne não é mais hoje indispensável à vida

12. Não existe contradição entre a resposta consignada por Kardec e as lições de Emmanuel e Alexandre, porque entre Kardec e os dias atuais já se passaram mais de cem anos. Na época da Codificação, certamente não foi possível aos Espíritos Superiores dar outra resposta senão aquela. Há que considerar, também, o grau de evolução da Humanidade de hoje e o nível evolutivo da sociedade do Século XIX.

13. À medida que o homem progride moral e intelectualmente, passa a ter horror ao sacrifício dos animais, mesmo para a sua alimentação. A descoberta de novas técnicas de produção e o aprimoramento das existentes culminam por fazerem desaparecer, gradativamente, os matadouros e frigoríficos.

14. Hoje em dia os recursos alimentares, com o aperfeiçoamento da agricultura e da indústria, são inumeráveis. Nas viagens espaciais, por exemplo, os astronautas alimentam-se de substâncias condensadas em forma de cápsulas, que possuem todos os nutrientes necessários à sobrevivência.

15. Com a soja é possível substituir, com vantagens, inúmeros produtos de origem animal, como o leite, o queijo e mesmo a carne, o que indica que esta não apresenta mais o caráter de produto indispensável à subsistência humana, como certamente o era à época de Kardec.

Respostas às questões propostas

1. Como podemos conceituar privação? E em que consiste a privação voluntária? R.: A palavra privação tem, segundo os dicionários, o sentido de “despojar, desapossar alguém de alguma coisa; destituir, tolher, fraudar”. Privação voluntária consiste em renúncia consciente a bens, favores, gozos, facilidades ou direitos a que se tem acesso ou posse natural e legítima, mas a verdadeira privação voluntária é a que se dá em benefício do próximo, para auxiliá-lo materialmente ou espiritualmente.

2. A privação voluntária deve ter limites? R.: Sim. A privação voluntária deve ter limites. Recomenda a doutrina espírita que, no que diz respeito à existência terrena, é preciso que nos contentemos com as provas que Deus nos envia, sem lhes aumentar o volume, que já é, por vezes, tão pesado. Aceitá-las sem queixumes e com fé, eis o que o Criador exige de nós. O homem não deve enfraquecer o corpo com privações inúteis e macerações sem objetivos, porque necessitamos de todas as nossas forças para cumprir a missão que devemos desempenhar na Terra. Enfraquecê-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio.

3. Quais privações voluntárias são mais meritórias? R.: As privações voluntárias mais meritórias são as que o indivíduo experimenta, privando-se dos prazeres do mundo, para auxiliar o próximo. Essas privações são meritórias porque, ao privar-se de gozos inúteis, o homem se desprende da matéria e eleva sua alma. É meritório resistir à tentação que arrasta o indivíduo aos excessos, ao gozo de coisas inúteis, e mais ainda o é tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante.

4. Alimentar-se de carne é para o homem da atualidade uma prática correta ou um equívoco? R.: Segundo Emmanuel e Alexandre, trata-se de um equívoco, muito embora encontremos na questão 723 d’ O Livro dos Espíritos o seguinte ensinamento: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece. A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização”.
5. A carne é indispensável à subsistência humana? R.: Hoje em dia, graças aos avanços científicos, é possível substituir, com vantagens, inúmeros produtos de origem animal, como o leite, o queijo e mesmo a carne, o que indica que esta não apresenta mais o carácter de produto indispensável à subsistência humana, como certamente o era à época de Kardec.

Bibliografia:
O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, itens 720 a 723. O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, cap. 5, item 26. O Evangelho segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, cap. 13, item 6. O Consolador, de Emmanuel, obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, pergunta 129.

Missionários da Luz, de André Luiz, obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, cap. 4.

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