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Quando morávamos à beira-rio, ainda havia Invernos a sério: muito frios, com muita neve e cristais de gelo nas janelas. Quando morávamos à beira-rio, a minha mãe acendia sempre o fogão pela manhã. Amarrota folhas de jornal e mete-as na portinhola do fogão. Por cima coloca lascas de madeira e depois dois briquetes em brasa retirados da caixa do carvão. Embrulhada na camisa de dormir comprida e branca, ajoelha-se em frente do fogão e sopra com cuidado.
Puxo até ao pescoço o cobertor grosso e observo-a. Faz isto todas as manhãs. Fecho os olhos e ouço a madeira a crepitar.
Quando morávamos à beira-rio, podia ficar na cama até a cozinha estar aquecida. Em seguida, a mãe fazia chocolate quente e colocava à minha frente, sobre a mesa, a chávena cor de rosa com desenhos de nuvens.
Podia ficar o dia inteiro sentada em frente da chávena das nuvens mas não posso, porque a escola começa às oito menos um quarto e a Brigite já está na esquina à minha espera.
A mãe dá três voltas com o cachecol no meu pescoço. Ajuda-me a pôr a pasta às costas e diz-me para não me atrasar. Não gosto de ir à escola. Acabámos de nos mudar, e eu sou a nova e ninguém quer sentar-se à minha beira nem brincar comigo, nem mesmo a Brigite. Só espera por mim porque o professor Alfredo quer. Na verdade, acha que sou uma pateta.
— Pareces um pulgão — disse-me. — E és tão lenta! E... olha só para ti...
A Brigite tem tranças pretas, compridas, e orelhas de abano. Só que elas não se veem quando faz de Maria, porque solta os cabelos e põe um lenço na cabeça.
Foi o pai do Martim quem construiu o presépio, porque o Martim vai fazer de S. José. O papel é simples, José quase não tem nada para dizer. Só tem se apoiar no cajado e ficar em pé, com um ar de devoção, ao lado de Maria e do Menino. Para o Martim, a devoção é o mais difícil, porque o Óscar, na última fila, passa o tempo a fazer caretas. O Óscar não só abana as orelhas como consegue trocar os olhos de tal maneira, que uma pessoa até pensa que eles vão ficar assim para sempre.
O Professor Alfredo é muito severo e pode encolerizar-se a sério! Sempre que se enfurece, tem uma veia na testa que fica muito grossa. E até se vê o sangue a pulsar. De cada vez que a Filomena Cardoso não está concentrada, vejo o sangue do professor Alfredo a latejar. E isto acontece muitas vezes. De qualquer maneira, eu não tenho nada para fazer porque faço o papel de ovelha e limito-me a ficar junto dos pastores. Todos se riram quando o professor me deu o papel de ovelha.
— Até te fica bem — disse a Brigite com um risinho. — Uma ovelha preta...
Riu-se baixinho, porque também ela tem medo dos ataques de fúria do professor.

A mamã está a coser-me um fato de ovelha. Tinha-mo prometido. E disse que estava contente por eu fazer de ovelha na peça de teatro. Porque as ovelhas são animais pacíficos. Meiguinhas e suaves, que são qualidades boas, diz a mãe.
Mas eu preferia ser um pastor e gostava ainda mais fazer de Maria. Mas nunca hei de sê-lo porque a mamã me cortou o cabelo.
Cabelos curtos são mais práticos, diz ela.
Mas não existem Marias com o cabelo curto.
Os ensaios para a representação do presépio já duram há quatro semanas. O Natal está cada vez mais próximo.

À tarde, à beira-rio, escurece muito cedo. A mamã faz bolachas e eu ajudo-a. A nossa cozinha cheira a Natal. As bolachas prontas vão para uma lata prateada e aí ficam à espera da noite de Natal, diz a mãe.
Eu gostava de também poder esperar pela noite de Natal dentro de uma lata prateada, mas não posso. Todos os dias, pela manhã, tenho de ir para a escola fazer de ovelha.
Do que tenho mais medo é do dia vinte e quatro de Dezembro, que é quando vamos representar a nossa peça, na igreja.
O professor Alfredo diz que as pessoas vêm todas assistir só para nos ver. E que por isso devemos dar o nosso melhor.
Mas como é que uma ovelha dá o seu melhor? O que é o melhor de uma ovelha? De qualquer maneira, vou esforçar-me e ficar deitada muito quieta. Espero que ninguém se ria porque isso seria o pior, não para mim, mas para a mamã, que se envergonharia de mim, e isso, eu não quero.

No dia dezanove de Dezembro começa a nevar. Estou sentada no meu lugar, na sala de aula, e olho para os flocos de neve que caem do céu como açúcar em pó. De tanto olhar, uma pessoa até se sente cansada.
Felizmente, o professor não repara como estou cansada porque tem de prestar atenção ao Martim e à Filomena. A Brigite belisca-me o braço mas eu não posso gritar, nem sequer dizer “Ai!”, porque senão o professor Alfredo fica furioso.
No intervalo grande, fazem uma batalha de bolas de neve e eu sou o alvo. O professor Alfredo é quem está a vigiar. Encostado ao muro da escola, vai trincando a sua sanduíche e desvia o olhar.
Apesar de tudo, gosto da neve porque, sob o gorro de flocos, tudo tem um aspeto diferente. De certa maneira, mais limpo e mais fofo do que de costume.

Quando era pequena, pensava que, se me lavasse com neve, ficava branca como os outros meninos. Mas a mamã disse que aquilo era uma patetice e que gostava que eu fosse assim, mais escura. Disse escura, porque sou negra. A minha pele é toda preta, exceto nas solas dos pés e nas palmas das mãos.
— Tu és muito especial — disse a mamã.
Mas eu não quero ser especial.

Na minha lista de desejos para o Natal escrevi que queria fazer o papel de Maria. Este é o meu maior desejo, e também o do próximo ano, mas isso, o Menino Jesus já sabe. Fecho o envelope com cola e coloco-o no beiral da janela. A mamã acrescenta uma bolacha da caixa prateada. É para o anjo carteiro. É um longo caminho até ao céu!

Temos de lá estar uma meia hora antes, como disse o professor.
Espero pela Brigite na esquina da rua mas ela não aparece. Espero cinco minutos, espero dez minutos, depois, desato a correr.
A igreja já está cheia. E a veia do professor Alfredo a latejar. Mas não ralha.
— Graças a Deus! — exclama ele, ao ver-me. — Depressa! Veste-te. Tens de fazer de Maria! Sabes o texto?
— Mas... mas... a Brigite... — gaguejo.
— Está doente — responde o professor.
Os sinos começam a tocar e o órgão ressoa.
Todos cantam “Noite Feliz. Noite de Amor.”
Estou de pé junto do Martim e seguro o Menino Jesus nos braços. A Filomena, hoje, tem um olhar muito concentrado.
Quando terminamos, toda a igreja está em silêncio. Depois, as pessoas começam a aplaudir e nunca mais param.

Jutta Richter; Jacky Gleich
Als ich Maria war
München: Karl Hanser Verlag, 2010

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Comentário de Conceição Valadares em 22 dezembro 2018 às 10:52

Lindo amiga!!! Obrigada

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